‘‘A memória de um povo há de ser preservada, para que o progresso não apague a história’’
  Bertrando Bernardino, engenheiro e escritor, nascido em Caruaru-PE, é veranista em São José da Coroa Grande desde 1975. Após ter fundado a Escola Gisa, destinada a crianças carentes, construiu o Museu do Una em 2000, considerado desde então como uma referência em preservação da cultura e meio ambiente da região. A seguir, transcrevemos uma entrevista do Jornal Costa Dourada, que mostra, além dos objetivos do museu e um pouco da forma de pensar do seu fundador.
 
Costa Dourada - Por que construir um museu?
Bertrando Bernardino - A memória de um povo há de ser preservada, para que o progresso não apague a história e possamos aprender com os antepassados, estudando formas de evolução cultural. Para isso, nos propusemos a resgatá-la e exibi-la em um espaço adequado.

CD - Por que Várzea do Una?
BB - A vila de Várzea do Una é um local privilegiado pela natureza quanto à beleza e biodiversidade. Nos arredores podem ser vistos coqueirais, canaviais, manguezais preservados, mata atlântica e vegetação de restinga em praia preservada e deserta localizada em um istmo. Além disso, está situada em plena área de preservação ambiental de recifes de corais, uma da mais importantes do atlântico sul, a APA Costa dos Corais.

CD - Qual a importância histórica do local?
BB - Os índios Caetés, da nação Tupi, foram os primitivos habitantes, até serem quase dizimados pelo governo português, após comeram o bispo Fernandes Sardinha e sua comitiva quando do naufrágio da nau N. S. da Ajuda, no litoral de Alagoas. Durante a guerra com os holandeses foi ponto de convergência e resistência das tropas pernambucanas. No ciclo do açúcar e até a primeira parte do século passado, foi entreposto açucareiro dos engenhos e usinas que margeavam o Rio Una. Tais fatos demonstram a contribuição da região para a história do Brasil.

CD - Qual a ligação do Museu do Una com a Escola Gisa?
BB - O Museu do Una faz parte de um projeto de vida, que já contempla a escola Gisa, uma entidade de ensino sem fins políticos ou lucrativos, que conta com mais de 250 alunos matriculados em turmas de ensino fundamental e especial para crianças carentes, além de alfabetização de jovens e adultos, desta feita com o apoio do programa Banco do Brasil Educar. Atualmente funciona em regime de comodato com a Prefeitura Municipal de São José da Coroa Grande, que sempre apoiou a iniciativa, não medindo esforços para a realização dos objetivos.

CD - Existe um plano para a inserção do Museu do Una na comunidade?
BB - O Museu do Una trouxe inúmeros benefícios à região, em especial à comunidade de Várzea do Una. Em menos de dois anos de inaugurado, recebemos mais de 5.000 visitantes, promovemos eventos como o Primeiro Salão de Artes da Costa Dourada e o Primeiro Seminário de Biologia, Pesca e Educação Ambiental, além de termos instalado uma biblioteca com cerca de 3.000 volumes. Dentro em breve será construído o Teatro do Una, anexo ao museu, com capacidade para 100 lugares, onde também serão ministrados cursos de educação ambiental.

CD - Como é feita a divulgação do Museu?
BB - São distribuídos cartazes em hotéis, bares e restaurante, agências de turismo e marinas, instituições de ensino e pesquisa e através do site www.museudouna.com.br. Em janeiro de 2001 foi matéria de uma reportagem especial na Rede Globo. No museu, contamos com uma pequena loja no museu, onde são vendidos bonés, camisetas, botons e adesivos.

CD - Quais as fontes para a formação do acervo e manutenção do Museu?
BB - Inúmeras pessoas e instituições têm feito doações de peças para a formação do acervo e existe uma contribuição simbólica aos visitantes para cobrir as despesas com manutenção. Mas ressalta-se que o custo mensal, o mesmo que manter uma pequena embarcação, é imensamente compensado com a conscientização das pessoas quanto à preservação da cultura e do meio ambiente.

CD - Quais as maiores dificuldades encontradas no empreendimento?
BB - Morar e trabalhar a cerca de 120 km do local e dispor de recursos financeiros limitados provocam alguns atropelos, mas tudo contornado satisfatoriamente, com paciência e obstinação.

CD - O senhor gostaria de fazer algumas considerações finais?
BB - Todos os cidadãos tem obrigação de contribuir para a melhoria de vida da comunidade em que vivem, não importa a profissão. Basta querer fazer, sem buscar retorno financeiro ou político, pois isso compromete a credibilidade da ação. Ressalta-se ainda que o museu, a biblioteca, a escola e futuramente, pertencem à comunidade.