ASPECTOS SÓCIO-ECONÔMICOS E POLÍTICOS

As condições sócio-econômicas do município de São José da Coroa Grande são, em muitos aspectos, comuns às do município de Barreiros, ao qual pertencia até a emancipação política, em 1962. Ressalta-se ainda que até o ano de 1817 Alagoas pertencia à Pernambuco, evidenciando raízes históricas e culturais com o vizinho município de Maragogi-AL.

Atividades Econômicas

De antemão, merece destaque na economia do município o quadro de funcionários públicos efetivos e também contratados, que em dezembro de 2003 representavam 425 e 306, respectivamente, contando ainda com 20 aposentados e 5 pensionistas.
Observa-se que, na maioria das vezes, cabe a cada empregado no setor público o sustento de uma família inteira e também outros membros, significando grande impacto na economia do município quando de atrasos de pagamentos.

Pesqueira

A pesca, feita de forma artesanal e muitas vezes até primitiva, é uma das principais atividades econômicas, mas a prática predatória, em especial nos estuários dos rios, utilizando redes de malha fina, explosivos e armadilhas proibidas como “redinhas e ratoeiras”, além de produtos químicos como carrapaticida e água sanitária, assim como desconsiderando o tamanho mínimo e a capacidade de reprodução das espécies, provocou uma significativa redução dos estoques de peixes, moluscos e crustáceos, tornando a atividade pouco produtiva.
Outra condição que causa impactos ambientais e reflete diretamente na população das espécies são os desmatamentos de manguezais, para utilização da madeira em construções de cercas, esqueletos de casas de taipa, lastros de camas e carvão, além das modificações antrópicas nos estuários e fozes dos rios Una e Persinunga. Outra atividade que contribui negativamente e de uma forma significativa é o turismo de verão, quando os recifes de corais, que pertencem à Área de Proteção Ambiental Costa dos Corais, são invadidos sem qualquer disciplina.
Tal condição provocou uma migração de pescadores mais abonados para outros municípios e estados, como Barra de Santo Antônio-AL e Porto Seguro-BA, onde a produtividade pesqueira é maior, fazendo com que a renda dos que continuam a viver da pesca no município seja reduzida, muitas vezes sendo complementada ou substituída por rendas de outras atividades.

Agropecuária

A agricultura que predominou no município durante os últimos séculos era a da cana-de-açúcar, tendo vertiginosa queda quando do fechamento da Usina Central Barreiros, em 1998, visto que a produção de quase toda área cultivada destinava-se à referida usina, tendo sido interrompido o cultivo em razão da tomada das terras pelos ex-funcionários da referida Usina, que estavam com os arrendatários.
Desde então não mais ocorre o plantio da cana-de-açúcar e o que restou foi a chamada “cana-de-soca”, com mais de seis cortes, em pequenas áreas de alguns engenhos – onde antes era cana-de-açúcar hoje é mato, como comentam os camponeses. O desenvolvimento de outras culturas, para compensar as perdas da cultura da cana-de-açúcar, praticamente inexiste, em parte por falta de interesse e em parte dada a não divisão de terras já desapropriadas pelo INCRA, impossibilitando a obtenção de empréstimos bancários para cobrir gastos com replantio e capital de giro. Somente em alguns casos e de uma forma pouco produtiva são cultivadas lavouras de tubérculos e hortaliças, destinadas ao consumo próprio e comercialização em feiras e residências da região.
A pecuária é baseada em bovinos, com cerca de 1800 cabeças no ano de 2003, conforme estimativa da Secretaria de Agricultura do município, ressaltando-se que aproximadamente 700 cabeças são de propriedade de famílias de baixa renda.
No engenho Morim existe criação de búfalos; no engenho Manguinhos, além da criação de búfalos, existem imensas áreas tomadas por coqueirais; no Engenho Brejão existe criação de gado e coqueirais e na Fazenda São Francisco também há criação de gado.

Comercial

O município dispõe de cerca de 200 estabelecimentos comerciais de pequeno porte, dentre os quais estão farmácias, mercados, lanchonetes, bares, restaurantes, armazéns de construção e lojas de confecções, móveis e eletrodomésticos, na maioria concentrados na sede do município, destacando-se apenas um armazém de construção como empresa de médio porte.
A atividade comercial somente é considerada atrativa nos meses de verão, quando o município recebe aporte de recursos oriundos de turistas e veranistas. Nos demais meses e na maioria dos casos o faturamento cobre apenas a manutenção da atividade, considerando ainda que a mão-de-obra utilizada com raras exceções é familiar, fazendo com que muitos estabelecimentos reduzam a mão-de-obra contratada, contribuindo para aumentar o desemprego e a queda de renda e consumo.

Turística

Apesar do imenso potencial turístico do município, um dos maiores do litoral do nordeste, a atividade é pouco desenvolvida, devido à falta de estímulo aos empreendimentos, carência de estrutura básica e ineficiente política de promoção de eventos e divulgação em órgãos, agências e estabelecimentos de turismo.
O município conta com 7 flats e pousadas, com aproximadamente 120 apartamentos, dos quais apenas 60% com ar condicionado, marinas, trilhas para off-road e caminhadas, museu, bibliotecas, estaleiro artesanal, recifes de corais, manguezais, estuário e foz de rio, restinga e mata atlântica, além de vários bares de restaurantes.
Nos meses de verão, em especial janeiro e fevereiro, além de feriados, a população de aproximadamente 15.000 habitantes mais que duplica, provocando agitação e um certo descontrole no modo de vida da comunidade. Além disso, a ausência de áreas específicas para camping faz com que tendas e barracas sejam armadas de forma indisciplinada na orla marítima, prejudicando o visual, danificando a vegetação e causando problemas sanitários.
Constata-se também que a proliferação de barracas na orla, a maioria sem qualquer estrutura estética e condição sanitária, além de instaladas desordenadamente, causam uma péssima impressão aos turistas.
Quanto à exploração do artesanato e de outros recursos culturais, o município é pouco desenvolvido, faltando políticas de estímulo a tais empreendimentos, que geram renda principalmente para a população mais carente. Merece ressalva que, como o mercado local de artesanato praticamente inexiste, muitos artesãos confeccionam peças para vende-las em outros municípios.

Industrial

Estima-se que a atividade industrial em São José da Coroa Grande proporcione emprego a cerca de 100 pessoas, sendo restrita à construção de barcos de pesca, através do estaleiro instalado no distrito de Várzea do Una; à fabricação de artefatos de cimento e à manufatura de cordas de fibras de coco, que são destinadas ao fabrico de tapeçarias.
O assoreamento do estuário do Rio Una, onde está localizado o Estaleiro do Mestre Zuza põe em risco a atividade de construção de barcos, assim como a derrubada de coqueiros para dar lugar a loteamentos fez com que a manufatura de cordas de fibras de coco fosse reduzida significativamente, por falta de matéria-prima.

Costumes

Os costumes dos habitantes é fruto de uma cultura patriarcal adotada em engenhos e usinas, que perdurou durante séculos na região, fazendo com que predomine nos habitantes, principalmente os nativos, a espera de ações governamentais para o desenvolvimento. Também há de se considerar que alguns costumes indígenas ainda estão arraigados, como buscar no mar ou em rios o alimento que sacia a fome e supre as necessidades básicas. Para muitos, em especial os que moram engenhos, áreas ribeirinhas ou à beira mar, se satisfazem em ter uma simples morada, o que comer e vestir.
É comum encontrar um estado de letargia em grande parte dos habitantes, que gozam a vida de uma forma simples e sem grandes ambições. Tal condição faz com que os chamados novatos e visitantes de cidades desenvolvidas e de grande atividade não entendam como a maioria das pessoas não trabalham com afinco e obstinação. Aliás, ou se adaptam aos costumes locais ou ficam estressadas.

Política

Observa-se que não existe consciência e tampouco capacidade de mobilização da população para sugerir ou cobrar das autoridades municipais eleitas ou constituídas ações que resultem em melhores condições de vida da comunidade. Tal como na maioria dos municípios, são comuns as críticas aos governantes, sobre o que fazem de certo ou errado ou o que deixam de fazer, mas vinga apenas a cômoda posição de “como não tem jeito, vamos aguardar a próxima eleição”.
Assim como inúmeros municípios, quando chega a época das eleições, com o título de “favores e ajudas”, são comuns as trocas de votos por materiais de construção, cestas básicas, pequenas gratificações em dinheiro e outros benefícios. Os candidatos se alvoroçam e revoam em busca de articulações políticas até então inimagináveis, passam a freqüentar eventos até então relegados, se mostram afáveis, receptivos, acolhedores e prestativos, promovem almoços e serestas e pagam rodadas de cachaça.
E mais uma vez uma grande parte dos eleitores esquece as promessas de campanha não cumpridas, o nepotismo em detrimento da competência, os favorecimentos de aliados e as perseguições de adversários, a falta de empenho e ações estratégicas que promovam o desenvolvimento do município.

Favelas Urbanas

A fragilidade das atividades econômicas e a má distribuição de terras também são fatores que agravam o desemprego no município, proporcionando um estado crítico de desocupação e conseqüente manutenção e elevação da pobreza, levando famílias a se refugiarem em periferias de áreas urbanas que se transformam em favelas e se expandem de forma desordenada e sem qualquer infraestrutura, principalmente pela falta de um plano diretor e de leis que regulamentem e fiscalizem o uso e ocupação do solo.

Localização e Características

No município, existem três grandes favelas urbanas, cada uma com cerca de 300 habitações. A Beira Mole, que fica na margem direita da rodovia PE 060, no sentido Alagoas; a do Maruim, que se situa no final da rua Lídio Florentino, no sentido Sítio Manguinhos, sendo considerada a mais antiga do município, e a do Jaguatá, situada no local denominado Mata do Cajueiro, próximo de uma vila construída em 2001 para receber desabrigados da cheia de 2000.
Nas favelas da Beira Mole e Maruim, por estarem localizadas em áreas baixas, não disporem de escoamento de água e sofrerem influência das marés, os alagamentos são constantes, causando imensos transtornos e problemas de saúde pública, pois os dejetos dispostos em buracos e valas que servem como vasos sanitários em inúmeras habitações transbordam e se espalham, contaminando o ambiente. Em alguns locais somente é possível o acesso quando em períodos secos ou com a maré baixa. Além disso, em muitas habitações o piso é a própria lama de mangue adensada ou areia do apicum ( planície contígua ao manguezal ), forçando uma convivência amistosa com os caranguejos e guaiamuns, sem contar com a grande quantidade de insetos que povoam o local e servem como vetores de doenças.
São comuns os desmatamentos de mangues para utilização de varas como lastro de camas e construções de cercas e esqueletos de casas de barro cobertas por palhas de coqueiro, que representam cerca de 70% das habitações, além de grande precocidade na iniciação sexual e incontáveis casos de alcoolismo.
Nas favelas existe um consistente trabalho da Pastoral de Criança e do Conselho Tutelar, buscando orientar as famílias e minimizar as condições desfavoráveis das crianças, que abrangem desnutrição, subnutrição e violência.
A situação das favelas em São José da Coroa Grande é deveras lamentável e requer uma urgente ação dos órgãos governamentais, principalmente os responsáveis pela saúde pública.

População

Para melhor entendimento dos leitores, abordamos de uma forma simples um pouco da história e a contribuição que as raças indígena, portuguesa e africana tiveram nos costumes, miscigenação e formação das comunidades de Pernambuco, dentre elas a de São José da Coroa Grande.
Constata-se que nos dias atuais a imigração de pessoas oriundas de outras regiões tem inserido peculiaridades na cultura local, que com o tempo foram se enraizando, mas nada que possa desvirtuá-la.

Indígena

A área abrangida desde o que é hoje o Cabo de Santo Agostinho até a foz do Rio São Francisco, onde estava localizado o que é hoje o município de São José da Coroa Grande, era habitada pelos índios Caetés, um ramo de costumes antropofágicos da nação Tupi que, segundo historiadores, não se prestavam para trabalhos regrados e tampouco escravos, pois eram preguiçosos e indóceis, conforme tentativas dos colonizadores nos primeiros cultivos de cana-de-açúcar e instalações de engenhos.
Em 1556, quando do naufrágio da nau portuguesa Nossa Senhora da Ajuda, nas proximidades da foz do Rio Coruripe, os nativos devoraram o bispo Pero Fernandes Sardinha e outros membros da comitiva portuguesa. Tal evento desencadeou uma avassaladora e sanguinária caça dos portugueses aos índios Caetés em toda a região, que durou cerca de 5 anos, quando quase foram dizimados, sendo os sobreviventes obrigados a fugirem para o interior ou, quando capturados, condenados à escravidão perpétua.
Mas passado algum tempo e acalmada a ira dos portugueses, puderam os índios conviverem pacificamente com os novos costumes ditos civilizados. Registros indicam a existência, em 1625, de uma aldeia indígena em São Miguel do Una, à montante e a 6 km distante da atual vila de Várzea do Una, tendo a mesma sido criada provavelmente entre 1589 e 1594, após a trégua dos portugueses.
A pesca em São José da Coroa Grande, muitas vezes utilizando canoas e práticas primitivas, lembra os nativos da região, que utilizavam igaras singrando o Rio Una.

Portuguesa

Os portugueses tiveram grande influência na colonização do litoral, considerando que deram início à agroindústria, com o plantio da cana-de-açúcar e à instalação de engenhos, além da participação em conflitos com nativos e holandeses.
Depois dos eventos relacionados com o descobrimento, dentre os quais levantamentos cartográficos, em especial da zona costeira, os portugueses cuidaram em colonizar as terras, para defendê-las dos invasores, culminando com a Doação e Foral da Capitania de Pernambuco para Duarte Coelho, em 1534, que abrangia uma área desde o Rio Santa Cruz, em Itamaracá, até a foz do Rio São Francisco, considerando 60 léguas do litoral.
Observa-se ainda que em 1549, chegaram os primeiros degradados, aventureiros e fugitivos da inquisição. Para ajudarem na colonização e doutrinação dos nativos, vieram os religiosos Jesuítas em 1551, Carmelitas em 1583, Franciscanos em 1585 e Beneditinos em 1596. Aliás, entre 1593 e 1595 foi instalado em Pernambuco um tribunal da Inquisição.
São José da Coroa Grande se encontrava em um ponto central do litoral da Capitania de Pernambuco e quase na foz do Rio Una, ponto estratégico das forças de proteção da costa e de convergência para os catequizadores.

Africana

Os africanos, em sua maioria originários de Guiné, Serra Leoa, Congo, Sudão, Gâmbia e Costa do Marfim, participaram ativamente da formação da história e cultura da sociedade brasileira, em especial quando do ciclo do açúcar e na zona da mata de Pernambuco onde está localizado o município de São José da Coroa Grande, onde trabalharam com afinco nos canaviais e engenhos, sendo ponto central do litoral e de passagem para fugitivos em direção ao quilombo dos Palmares.
Registros históricos dão conta que em 1539, necessitando de mão-de-obra para o cultivo da cana-de-açúcar, Duarte Coelho pediu permissão para importar escravos, tendo o Rei D. Sebastião permitido a cota de 120 escravos / engenho.
Em 1585, conforme registros de José de Anchieta, eram 120.000 escravos em Pernambuco, em grande parte estabelecidos na região da mata sul, que sobreviviam uma média de 17 anos, em virtude de doenças, pouca alimentação e uma carga de trabalho de até 18 horas / dia, para poder compensar o pagamento.
Merece registro a condição dos proprietários dos navios trazerem escravos e obrigarem os senhores de engenho a adquiri-los, sob pena de não levarem o açúcar de exportação, assim como que o fumo e a cachaça eram utilizados como moeda na negociação de escravos. Ressalta-se ainda que a maioria dos negros que desembarcaram em Pernambuco eram do grupo bantos, enquanto que os que desembarcaram na Bahia eram do grupo sudaneses.